O discurso do empreendedorismo que mascara a exploração

Por: Alam Moura

A precarização do trabalho é um processo que vem se acentuando ao longo dos anos, o direito ao trabalho digno hoje é um privilégio para poucos, o “Novo Brasil” agora celebra e romantiza o bico, o chamando de empreendedorismo. É claro que é inevitável não traçar uma relação deste momento com os desmontes que o país vem sofrendo desde o golpe de 2016, mas não podemos deixar de falar que isso também é um reflexo da relação que o brasileiro tem com o trabalho ao longo de sua história.

Ao fazer uma linha do tempo desde a invasão portuguesa, fica claro que nunca conseguimos estabelecer uma ideia justa e concreta do que é trabalho, e por incrível que parece a ideia mais próxima que ainda carregamos e a do trabalho escravo. Obviamente com uma nova roupagem, pois como quase todas as atrocidades herdadas e mantidas pela elite, relativizar qualquer ato ou política que vão contra o povo e as minorias é nossa especialidade.

A cidade de São Paulo desde a segunda metade do século XX simboliza como ainda lidamos com o trabalho de uma forma escravocrata mesmo sem perceber. “A cidade que não dorme”, “A locomotiva do Brasil” essa são algumas das frases que com o passar dos anos se tornaram uma espécie de síntese sobre a capital paulista, e há quem se orgulhe disso, aliás, provavelmente o orgulho vem de quem não está inserido neste contexto.

Levantar às quatro da manhã, pegar transporte público e demorar de três a quatro horas para chegar ao trabalho, para estas pessoas a única motivação para tal façanha talvez seja outro clichê dos pregadores da meritocracia, “Deus ajuda quem cedo madruga”, e celebrando a miséria agradecem os céus por ao menos ter o que comer no final do mês.

A aristocracia que nunca precisou fazer o mínimo de esforço para desfrutar de toda sua riqueza comemora o fato da maioria ainda acreditar que pode chegar lá, ou pior, se contentar em abrir mão do bem mais valioso, o tempo, pois como em qualquer crise a onda de desemprego é o cenário perfeito para os mais pobres voltarem a ser massa de manobra, tamanho é o medo de perder o emprego.

A nossa relação com o trabalho ainda está baseada na quantidade de tempo que temos que ceder para atingir a tão sonhada liberdade. Quanto mais trabalho, mais tempo longe da família, dos filhos, mais próximo estamos do “paraíso”. A cultura do sofrimento, do objetivo de escalar a montanha, pois somente quem está no topo fez por merecer, essa é a ideia que está enraizada nas palestras motivacionais e que levamos para relações pessoais, família, amigos e para toda vida. Afinal, porque precisamos transformar nosso tempo em produto, uma mercadoria?

Somente quando tivermos controle do nosso próprio tempo, vamos ter noção do que é ser livre. A uberização do trabalho é a mais clara síntese da alienação de um projeto de exploração beirando ao trabalho análogo a escravidão, com uma nova roupagem, aquela mudança de nomenclatura que a elite brasileira adora fazer.

Ao se referirem aos entregadores de aplicativo como empreendedores, ofendem todos os milhões de desempregados que perdem noites de sono, e levantam sem saber se vão conseguir realizar a última refeição do dia. A crise em benefício de poucos gera o medo, um sentimento de desespero que obriga o trabalhador descer ao mais baixo nível social celebrando a miséria quando agradecemos todos os dias pelo emprego precário sem a mínima chance de reivindicar por direitos, afinal, o que prevalece em tempos de crise é a velha máxima patronal, “se você não quiser, tem outro na fila”.

O Brasil se tornou refém da sua própria história escravocrata que mesmo após séculos não conseguiu resolver os problemas da desigualdade em todas as esferas sociais, mas que infelizmente ainda tem como exemplo de sucesso algumas famílias que nunca produziram absolutamente nada e mesmo assim pregam a meritocracia para manter sua hegemonia. Em uma sociedade que não faz ideia do valor que tem o seu tempo e ainda acredita que o trabalho escravo acabou, o empreendedorismo ainda é um privilégio para poucos.